CVM · Colegiado · 14/04/2020
Recurso nº 19957.002406/2020-16
Recurso (Decisão do Colegiado) nº 19957.002406/2020-16
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RECURSO CONTRA DECISÃO DA SEP EM PROCESSO DE MULTA COMINATÓRIA – TRX SECURITIZADORA S.A. – PROC. SEI 19957.002406/2020-16
Trata-se de recurso interposto por TRX Securitizadora S.A. contra decisão da Superintendência de Relações com Empresas – SEP de aplicação de multa cominatória, no valor de R$ 18.000,00 (dezoito mil reais), em decorrência do não envio no prazo regulamentar, estabelecido no art. 21, VIII, da Instrução CVM n° 480/09 (redação vigente à época) c/c art. 133, V, da Lei n° 6.404/76 e com o disposto nos arts. 9º, 10 e 12 da Instrução CVM nº 481/09 (quando aplicáveis), da Proposta da Administração para a Assembleia Geral Ordinária referente ao exercício de 2018. O Colegiado, com base na manifestação da área técnica, consubstanciada no Relatório nº 54/2020-CVM/SEP, deliberou, por unanimidade, pelo provimento do recurso e, consequentemente, pelo cancelamento da multa aplicada. Anexos MANIFESTAÇÃO DA ÁREA TÉCNICA
Manifestação da Área Técnica
COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS
Relatório nº 54/2020-CVM/SEP
Senhor Superintendente,
Trata-se de recurso interposto, em 25.03.20, pela TRX
SECURITIZADORA S.A., registrada na categoria B desde 02.03.11, contra a
aplicação de multa cominatória no valor de R$ 18.000,00 (dezoito mil reais), pelo
não envio, até 30.09.19, do documento PROP.CON.AD.AGO/2018, comunicada
por meio do OFÍCIO/CVM/SEP/MC/Nº190/19, de 14.10.19 (0965773).
2. A Companhia apresentou recurso nos seguintes principais termos
(0965751):
a) “antes de adentrar ao mérito da matéria, cumpre salientar que o presente
recurso é interposto de forma tempestiva, haja vista que a TRX Securitizadora se
cientificou, de forma inequívoca, acerca do Ofício, apenas na data de 16 de março
de 2020, conforme demonstra o comprovante instruído juntamente com a
presente (Doc. 01), apesar de o Ofício estar datado de 14 de outubro de 2019”
[doc. ];
b) “inicialmente, se faz imprescindível esclarecer que a TRX Securitizadora é
registrada como emissora na categoria B, sendo controlada pela TRX Holding
Investimentos, que detém 99,999% das suas ações, nos termos demonstrados
pelo formulário de referência vigente da TRX Securitizadora (Doc. 02)”;
c) “como é de conhecimento de V. Sas., os emissores registrados na categoria B
estão sujeitos a um menor nível de exigências em termos de divulgação de
informações. Este menor nível de exigências, naturalmente, estende-se à
obrigação de envio do documento norteador do Ofício (i.e. ‘Proposta de
Administração’), conforme podemos atestar pela leitura do artigo 21, §4°, da ICVM
480, vejamos:
“Art. 21 O emissor deve enviar à CVM por meio de sistema eletrônico
disponível na página da CVM na rede mundial de computadores, as
seguintes informações periódicas:
(...)
VIII – proposta da administração sobre os temas a serem deliberados em
assembleias gerais ordinárias, nos termos e prazos estabelecidos em
norma específica.
§ 4º O emissor está dispensado de entregar os documentos exigidos pelos
incisos VIII, XIII, XV, XVI, XVII e XVIII do caput, caso não esteja sujeito à
norma específica que dispõe sobre participação e votação a distância por
acionistas de companhias abertas”;
d) “para compreendermos o comando regulatório em sua integralidade,
inevitavelmente, precisamos nos socorrer da leitura da regra que trata
especificamente da participação e votação a distância por acionistas de
companhias abertas, evocada no artigo 21, §4°, supracitado, qual seja a Instrução
CVM nº 481, de 17 de dezembro de 2009, conforme alterada (‘ICVM 481’)”;
e) “de acordo com o artigo 1°, §1, da ICVM 481, apenas as companhias abertas
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registradas na categoria A e autorizadas por entidade administradora de mercado
à negociação de ações em bolsa de valores mobiliários estão sujeitas à
observância das regras relativas à participação e votação a distância. Desta
forma, a TRX Securitizadora, companhia registrada na categoria B, não está
sujeita à obrigação contida no artigo 21, inciso VIII, da ICVM 480”;
f) “nesse sentido, a CVM, por intermédio do item 3.4.2, “b” do OfícioCircular/CVM/SEP/Nº 3/2019, reiterou o seu posicionamento acerca da
inaplicabilidade do documento ‘Proposta de Administração’ para as companhias
registras na categoria B, destacando, apenas, a necessidade de as companhias
comunicarem, com antecedência de até 1 (um) mês da data marcada para a
realização da assembleia geral ordinária, os documentos pertinentes a assuntos
incluídos na ordem do dia, observado, ainda, a relativização deste prazo nos
cenários de comparecimento da totalidade dos acionistas na assembleia geral
ordinária, in verbis:
‘Embora a Instrução CVM nº 481/09 não se aplique às companhias abertas
registradas na Categoria B e àquelas registradas na Categoria A para as
quais não se aplique a Instrução CVM nº 481/09, cumpre alertar que esses
emissores estão obrigados, nos termos do artigo 133, inciso V, da Lei nº
6.404/76 e do artigo 21, inciso VIII, da Instrução nº 480/09, a enviar os
demais documentos pertinentes a assuntos incluídos na ordem do dia da
assembleia (encaminhados pelo Sistema Empresas.NET, categoria
“Assembleia”, tipo “AGO” ou “AGO/E”, espécie “Proposta da
administração”, escolhendo assuntos pertinentes conforme as orientações
prestadas neste Ofício (vide item “a” acima).
A proposta da administração para a AGO deverá ser entregue em até um
mês antes da data marcada para a realização da assembleia (30 dias).
(...)
Ressalta-se, ainda, que, nos termos do parágrafo 4º do artigo 133 da Lei
nº 6.404/76, o comparecimento da totalidade de acionistas na AGO
somente permite a entrega da Proposta da Administração fora do prazo
previsto no caput do artigo, se este documento for publicado antes da
realização da assembleia’”
g) “analisando a situação fática, a AGO foi regularmente realizada com a presença
de acionistas representando 100% (cem por cento) do capital social da TRX
Securitizadora, sendo dispensado, portanto, a publicação de edital de
convocação”;
h) “sem prejuízo, visando o integral cumprimento das obrigações constantes do
artigo 133, inciso V, da Lei n° 6.404, de 15 de dezembro de 1976, a TRX
Securitizadora publicou, no dia 19 de abril de 2019, nos jornais Diário Oficial do
Estado de São Paulo, às páginas 37, 38 e 39 (Doc. 03); e Diário de Notícias de São
Paulo, à página 05 (Doc. 04), bem como transmitiu via IPE à CVM e à B3 (Doc. 05),
os seguintes documentos pertinentes ao voto dos acionistas, também
disponibilizados na página da TRX Securitizadora na rede mundial de
computadores, conforme informado no item 4 AGO (Doc. 06):
I - Relatório da administração sobre os negócios sociais e os principais
fatos administrativos; e
II - As demonstrações financeiras consolidadas e o parecer dos auditores
independentes relativos ao exercício social encerrado em 31 de dezembro
de 2018";
i) "conforme citado anteriormente, a TRX Securitizadora é uma companhia não
pulverizada, sendo o seu controle exercido, de forma direta, pela TRX Holding
Investimentos, que detém 99,999% das suas ações; e esse fato deve ser
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considerado.
j) “isso porque, a nosso ver, o espírito da regra que obriga a publicação da
Proposta de Administração e demais documentos pertinentes ao exercício do
direito de voto nas assembleias gerais ordinárias é garantir que os votos sejam
proferidos pelos acionistas de forma embasada e sem qualquer assimetria de
informações entre os diversos acionistas da companhia. Uma vez que o acionista
majoritário teve ciência inconteste acerca dos documentos necessários ao
exercício do direito de voto, os quais, ainda, foram amplamente divulgados,
conforme comprovado no presente recurso, não há qualquer afronta ao bem
jurídico protegido pela legislação e pela regulamentação vigentes”;
k) “inclusive, o Ofício-Circular/CVM/SEP/Nº 3/2019 traz destaque para a decisão do
Colegiado na reunião realizada em 23.10.2018 (Processo 19957.009104/2018-46)
no sentido de que não há razão para se exigir a entrega eletrônica da proposta
para o conselho de administração para assembleias gerais de companhias cuja
totalidade do capital social seja detida, direta ou indiretamente, por um único”;
l) “em suma, aplicar qualquer penalidade à TRX Securitizadora se mostraria uma
medida totalmente desconectada dos preceitos protegidos, haja vista que os
acionistas e/ou o mercado não sofreram qualquer forma de lesão”;
m) “com base no exposto, resta cristalina a inaplicabilidade da Multa, haja vista
que (i) a TRX Securitizadora não se submete à obrigação emanada no artigo 21,
inciso III, da ICVM 480, comando regulatório pautado para a aplicação da multa, e
(ii) disponibilizou, de forma inequívoca, todos os documentos pertinentes ao voto
dos acionistas, antes da realização da AGO”;
n) “portanto, considerando as provas e argumentos sólidos apresentadas no
presente recurso, com destaque para a inaplicabilidade do artigo 21, inciso III, da
ICVM 480, não há que se falar em descumprimento da legislação e
regulamentação vigentes, inexistindo motivo para ensejar o cometimento de
infração por parte da TRX Securitizadora”;
o) “ante todo o exposto, a TRX Securitizadora pugna pelo cancelamento imediato
da cobrança da Multa”.
Entendimento
2. O documento Proposta da Administração para a Assembleia
Geral Ordinária (PROP.CON.AD.AGO), nos termos do artigo 21, inciso VIII, da
Instrução CVM n° 480/09 (válido à data de vencimento de entrega do documento)
combinado com o art. 133, inciso V, da Lei 6.404/76 e com o disposto nos arts. 9º,
10 e 12 da Instrução CVM nº 481/09, quando aplicáveis, deve ser entregue até 1
(um) mês antes da data marcada para a realização da assembleia geral ordinária.
3. Cabe ressaltar, ainda, que:
a) nos termos do §4º do art. 133 da Lei 6.404/76, o comparecimento da totalidade
de acionistas na AGO (foi o caso da AGO da Recorrente - 0965769) somente
permite a entrega do documento PROP.CON.AD.AGO fora do prazo previsto no
caput do artigo, se aquele documento for publicado (encaminhado via Sistema
Empresas.Net) antes da realização da assembleia, o que não ocorreu;
b) na AGO, realizada em 30.04.19 (0965769), foram deliberadas, entre outras, as
seguintes matérias: (i) as Contas dos Administradores e as Demonstrações
Financeiras referentes ao exercício encerrado em 31.12.18; e (ii) Destinação do
lucro líquido;
c) assim sendo, como companhia classificada na Categoria B, a Instrução CVM nº
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481/09 não se aplica à Recorrente, porém, conforme disposto no OFÍCIOCIRCULAR/CVM/SEP/Nº03/19, de 28.02.19, a companhia deveria ter encaminhado o
documento PROP.CON.AD.AGO/2018, através do Sistema Empresas.Net,
“Categoria: Assembleia”; “Tipo: AGO”; “Espécie: Proposta da Administração”;
Assunto: Destinação dos Resultados”.
4. No entanto, é importante salientar que:
a) a Recorrente tem apenas 1 acionista pessoa jurídica detentora de 99,999% das
ações (149.999 ações) e 1 acionista pessoa física detentora de 0,001% das ações
(1 ação), sendo a pessoa física acionista indireto da pessoa jurídica TRX Holding
Investimentos e Participações S.A., controladora da TRX Securitizadora, conforme
Formulário de Referência válido à época da AGO (FRE/2018 – versão 1– enviado
em 01.06.18 - 0972255 e0972271);
b) a Companhia está registrada na categoria B;
c) no âmbito dos Processos nº 19957.009106/2018-35 e 19957.009104/2018-46, o
Colegiado deferiu, em 23.1018, os recursos interpostos, pela CONCESSIONÁRIA DA
RODOVIA PRESIDENTE DUTRA S.A. e pela CONCESSIONÁRIA DO SISTEMA
ANHANGUERA-BANDEIRANTES S.A., contra a decisão do Superintendente de
Relações com Empresas de não dispensar as Companhias da obrigação de
entregarem a proposta do conselho de administração para as suas assembleias
gerais. No entendimento do Colegiado não haveria razão para se exigir a entrega
eletrônica da proposta do conselho de administração para as suas assembleias
gerais, uma vez que a totalidade do capital social da Companhia é detido, direta ou
indiretamente, por um único acionista. O Colegiado ponderou, inclusive, ser
necessário rediscutir a própria necessidade de que companhias registradas na
categoria B (caso das companhias supracitadas) sejam obrigadas a arquivar o
referido documento;
d) no âmbito do Processo nº 19957.009929/2019-41, o Colegiado, com base na
manifestação da área técnica, deliberou, por unanimidade, pelo provimento do
recurso, e, consequentemente, pelo cancelamento da multa aplicada à FORTE
SECURITIZADORA S.A. em caso similar ao presente; e
e) a Instrução CVM nº 609/2019, que entrou em vigor em 01.01.20, alterou a
Instrução CVM nº 480/09, tornando as Propostas da Administração para as
assembleias gerais obrigatórias apenas para as companhias registradas na
Categoria A e autorizadas por entidade administradora de mercado à negociação
de ações em bolsa.
5. Assim sendo, considerando o disposto no parágrafo anterior,
entendo que: (i) poderia ser aplicada, à Recorrente, a decisão do Colegiado
tomada no âmbito dos Processos nº 19957.009106/2018-35, 19957.009104/201846 e 19957.009929/2019-41, ainda que os casos não sejam idênticos; e (ii) cabe ao
Colegiado julgar o presente caso.
Isto posto, sou pelo deferimento do recurso apresentado pela TRX
SECURITIZADORA S.A., pelo que sugiro encaminhar o presente processo à
Superintendência Geral, para posterior envio ao Colegiado para deliberação.
Atenciosamente,
KELLY LEITÃO SANGUINETTI
Chefe de Seção
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Ao SGE, de acordo com a manifestação da chefe de seção,
Atenciosamente,
FERNANDO SOARES VIEIRA
Superintendente de Relações com Empresas
Ciente.
À EXE, para as providências exigíveis.
ALEXANDRE PINHEIRO DOS SANTOS
Superintendente Geral
Documento assinado eletronicamente por Kelly Leitão Sanguinetti, Chefe
de Divisão em Exercício, em 08/04/2020, às 15:39, com fundamento no
art. 6º, § 1º, do Decreto nº 8.539, de 8 de outubro de 2015.
Documento assinado eletronicamente por Fernando Soares Vieira,
Superintendente, em 08/04/2020, às 15:48, com fundamento no art. 6º, §
1º, do Decreto nº 8.539, de 8 de outubro de 2015.
Documento assinado eletronicamente por Alexandre Pinheiro dos
Santos, Superintendente Geral, em 08/04/2020, às 23:02, com
fundamento no art. 6º, § 1º, do Decreto nº 8.539, de 8 de outubro de 2015.
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Relatório 54 (0972299) SEI 19957.002406/2020-16 / pg. 5
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