CVM · Colegiado · 23/02/2021
Oferta pública
Recurso (Decisão do Colegiado) nº 19957.004014/2020-83
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RECURSO EM PROCESSO DE MECANISMO DE RESSARCIMENTO DE PREJUÍZOS – A.S.L. / XP INVESTIMENTOS CCTVM S.A. – PROC. SEI 19957.004014/2020-83
Trata-se de recurso interposto por A.S.L. (“Reclamante” ou “Recorrente”) contra decisão da BSM Supervisão de Mercados ("BSM") que indeferiu seu pedido de ressarcimento de prejuízos, no âmbito do Mecanismo de Ressarcimento de Prejuízos (“MRP”), movido em face de XP Investimentos CCTVM S.A. (“Reclamada” ou “Corretora”). Em sua reclamação à BSM, o Recorrente relatou que: (i) seu perfil de investimento era conservador, conforme cadastro na Reclamada; (ii) em 08.08.2019, realizou por equívoco uma venda a descoberto de 90 ações MAPT4, quando sua intenção era de compra. Assim, no dia seguinte, realizou operações de compra do ativo MAPT4 com o objetivo de zerar sua posição e, dessa forma, acreditou ter finalizado o aluguel de ações que havia feito de MAPT4; (iii) no mesmo dia, 09.08.2019, após ser alertado por e-mail pela Reclamada de que ele estava em posição “vendida a descoberto” de 90 MAPT4, o Reclamante entrou em contato para informar que havia realizado a compra de ativos MAPT4, e, em seguida, teria sido orientado a ignorar o teor do e-mail recebido; (iv) apesar de nos dias seguintes as ações MAPT4 não aparecerem em sua carteira, no dia 14.08.2019, o Reclamante visualizou essas ações em sua carteira, inclusive com valorização de 1.000% no período, o que, se fosse o caso, representaria na sua visão um lucro aproximado de R$ 20.000,00.
No entanto, ao entrar em contato com a Reclamada, teria sido informado que as ações não estavam disponíveis e a situação seria regularizada pela B3 em D+9; (v) em 19.08.2019, o Reclamante verificou em seu extrato que estava com saldo devedor de R$ 2.114,88, em decorrência de ter sido multado por utilização de margem indisponível na operação com o ativo MAPT4. Diante do exposto, o Reclamante solicitou o ressarcimento no valor de R$ 19.033,16 (dezenove mil, trinta e três reais e dezesseis centavos), alegando que o prejuízo fora causado pelo erro da Reclamada em (i) não lançar a compra das ações MAPT4 no dia posterior ao da venda a descoberto, (ii) liquidar de forma arbitrária todos os ativos que ele detinha (no valor aproximado de R$ 15.000,00), e (iii) lançar indevidamente saldo devedor em sua conta. Adicionalmente, requereu danos emergentes e lucros cessantes face aos fatos narrados. A Reclamada, em sua defesa, afirmou essencialmente que: (i) o caso em questão seria uma venda a descoberto de um ativo indisponível no mercado (sem aluguel), e a operação teria sofrido com as regras de liquidação da própria B3, não havendo atuação compulsória da Reclamada; (ii) todos os custos de recompra e multas foram calculados e aplicados pela própria B3, em linha com a metodologia prevista em seu manual; e (iii) a ação teria "reaparecido" porque o cliente, por não saber a regra de operação da B3, realizou a compra em D+1, ao passo que a B3 também realizou recompra compulsória.
Adicionalmente, após a manifestação da Reclamada, o Reclamante reforçou suas características enquanto investidor e alegou que a Reclamada faltou com o zelo e acompanhamentos necessários para verificar se as ordens emitidas condiziam com as características de aplicações realizadas por ele. A Superintendência Jurídica da BSM (“SJUR”), em seu parecer, concluiu que o pedido do Reclamante era improcedente, considerando que: (i) a compra das ações, conforme realizada, não supriria a falha de entrega. Isso porque ela teria sido realizada no dia seguinte ao da operação de venda a descoberto. Desta forma, a entrega da venda a descoberto, que deveria ocorrer em D+3, só ocorreria em D+4, o que gerou o descasamento dos ciclos de liquidação das operações. Assim, a aplicação de multas e liquidação de ativos teriam sido devidas, conforme previsto no regulamento aplicável; (ii) o Reclamante estaria ciente dos termos de operações com empréstimos de ativos, já que o contrato de intermediação, assinado por ele, fazia menção às operações referentes ao “Termo de Autorização - Banco de Títulos CBLC”, que trata de situações como a retratada no presente processo;
e (iii) não seria procedente a alegação do Reclamante sobre o desenquadramento de seu perfil ao do produto que ele operou, pois, ao assinar o "Contrato de Intermediação e Custódia e Outras Avenças", o Reclamante declarou ter ciência das normas aplicáveis às operações de empréstimo de títulos e autorizou expressamente a Corretora a representá-lo em operações de empréstimo perante o BTB. Ademais, na visão da SJUR, o “ perfil de investimento está relacionado à proteção do investidor em face de ofertas de produtos por parte dos intermediários e seus prepostos. Fora isso, os investidores possuem autonomia para a execução de operações no mercado de capitais, e devem estar atentos às regras que envolvem as operações que estão executando. ”. O Diretor de Autorregulação da BSM (“DAR”) acompanhando o parecer da SJUR, julgou improcedente o pedido de ressarcimento, considerando não haver ação ou omissão da Reclamada que tenha ocasionado o prejuízo alegado, nos termos do art. 77 da Instrução CVM nº 461/2007. Em seu recurso à CVM, além dos argumentos já trazidos nas manifestações anteriores, o Recorrente contestou a informação contida no parecer SJUR de que, para que não incorresse em multas, o investidor teria que ter zerado sua posição no próprio pregão em que a abriu. Nesse sentido, o Recorrente destacou que ele só teve conhecimento da necessidade de regularizar sua situação justamente no dia posterior ao da venda a descoberto, data em que foi enviado o e-mail pela Reclamada.
Em análise consubstanciada no Ofício Interno nº 15/2021/CVM/SMI/GME, a Superintendência de Relações com o Mercado e Intermediários – SMI esclareceu inicialmente sobre o funcionamento do mercado constante da decisão da BSM. Em síntese, a SMI destacou que a compra de ações realizada pelo Recorrente em D+1 não "neutraliza" a falha na entrega das ações que foram objeto de venda a descoberto em D+0, e nem afasta as potenciais consequências dessa operação. Dessa forma, segundo a SMI, no momento da liquidação da operação original, o Reclamante estava sujeito aos procedimentos previstos no regulamento da B3 para tratamento de falha de entrega de ativos, não cabendo, nesse ponto, reparos à explicação contida no Parecer SJUR. Por outro lado, a SMI discordou da posição da BSM quanto à adequação da operação ao perfil do investidor. De acordo com a área técnica, a documentação apresentada pela Reclamada não pode ser considerada suficiente para caracterizar a devida ciência dos riscos por parte do investidor. Ademais, a SMI ressaltou que o conteúdo da Política de Suitability à época dos fatos não corrobora a afirmação da Reclamada de que o Recorrente “ dispunha de perfil Suitability moderado (...), compatível às operações realizadas, (...) portanto, restando claro o conhecimento à (sic) respeito dos riscos envolvidos ".
A esse respeito, na descrição do perfil de investidor "Moderado", a Política de Suitability informa que, para este tipo de investidor " foram incluídos investimentos cuja perda máxima seja equivalente ao valor investido " - o que não é o caso para operações de vendas a descoberto. Sendo assim, a SMI entendeu não ser possível considerar que a operação realizada estivesse enquadrada no perfil do Recorrente, razão pela qual se mostrariam necessárias as diligências previstas no art. 6º da Instrução CVM nº 539/2013 direcionadas a obter uma ciência específica do investidor - as quais não ocorreram. Além disso, a SMI observou que a operação original realizada pelo Recorrente era inadequada ao seu perfil e era a primeira vez que ele operava esta categoria de valor mobiliário, e, no entanto, a Reclamada não alertou o cliente antes da operação e tampouco obteve sua declaração expressa sobre a inadequação do produto ao seu perfil. Ao contrário, a Reclamada só alertou o Recorrente no dia seguinte à execução da operação e, ao que tudo indica, apenas devido ao fato de não existir, naquele momento, o ativo disponível para aluguel no mercado. Por todo o exposto, a área técnica entendeu ter havido falha por parte da Reclamada ao disponibilizar operações características de investidor com perfil agressivo para investidor com perfil moderado, caracterizando assim uma omissão no contexto do art. 77, caput , da Instrução CVM nº 461/2007.
Nesse sentido, a SMI opinou pelo provimento do pedido do Recorrente, a fim de que seja realizado o ressarcimento dos prejuízos decorrentes das operações realizadas por ele em 08 e 09.08.2019 com o ativo MAPT4, no valor de R$ 17.102,55 (dezessete mil, cento e dois reais e cinquenta e cinco centavos), equivalente ao valor identificado como "diferença de recompra" (R$ 17.033,16), acrescido das tarifas e multas relacionadas (R$ 22,11, R$ 5,60 e R$ 41,68). O Colegiado, por unanimidade, acompanhando a manifestação da área técnica, deliberou pelo provimento do recurso, com a consequente reforma da decisão da BSM. Anexos MANIFESTAÇÃO DA ÁREA TÉCNICA
Manifestação da Área Técnica
COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS
Rua Sete de Setembro, 111/2-5º e 23-34º Andares, Centro, Rio de Janeiro/RJ – CEP: 20050-901 – Brasil - Tel.: (21) 35548686
Rua Cincinato Braga, 340/2º, 3º e 4º Andares, Bela Vista, São Paulo/ SP – CEP: 01333-010 – Brasil - Tel.: (11) 21462000
SCN Q.02 – Bl. A – Ed. Corporate Financial Center, S.404/4º Andar, Brasília/DF – CEP: 70712-900 – Brasil -Tel.: (61)
3327-2030/2031
www.cvm.gov.br
Ofício Interno nº 15/2021/CVM/SMI/GME
Rio de Janeiro, 09 de fevereiro de 2021.
À SMI,
Assunto: Recurso em processo de reclamação ao Mecanismo de
Ressarcimento de Prejuízos – MRP 763/2019
Processo SEI 19957.002796/2020-16
Senhor Superintendente,
1. Trata-se de recurso interposto por A.S.L. (“Reclamante”) no âmbito
do Mecanismo de Ressarcimento de Prejuízos - MRP contra decisão da BSM
Supervisão de Mercados pela improcedência do pedido de ressarcimento face à
XP INVESTIMENTOS CCTVM S.A. (“Reclamada”).
I. Histórico
I.i. Reclamação
2. Em sua manifestação inicial, o Reclamante alegou ser investidor sem
experiência e que seu perfil de investimento era conservador, conforme cadastro
na Reclamada (1032485, fls. 04-06).
3. O Reclamante afirmou que, em 08.08.2019, realizou por equívoco uma
venda a descoberto de 90 ações MAPT4. Sua real intenção, na verdade, seria ter
comprado tais ativos.
4. Diante do ocorrido, na manhã do pregão seguinte (09.08.2019), o
Reclamante realizou operações de compra do ativo MAPT4 com o objetivo de
zerar a sua posição, e, assim, acreditou ter finalizado o aluguel de ações que havia
feito de MAPT4.
Ofício Interno 15 (1200499) SEI 19957.004014/2020-83 / pg. 1
5. Porém, ainda no dia 09.08.2019, o Reclamante recebeu e-mail da
Reclamada na parte da tarde informando que havia sido verificado que ele estava
com posição “vendida a descoberto” de 90 MAPT4, que não teriam encontrado no
mercado BTC papéis disponíveis para alugar a fim de regularizar a situação e que
o Reclamante deveria entrar em contato com seu assessor de investimentos ou
com a área de atendimento para regularizar a situação. O e-mail continha ainda a
informação de que o Reclamante estaria sujeito a multa por possível falha de
liquidação perante a B3, além da possibilidade de liquidação compulsória da
posição.
6. Após tomar ciência dessa mensagem, o Reclamante teria entrado em
contato com a Reclamada para informar que havia realizado a compra de ativos
MAPT4 e que lhe teriam dito, então, para que ignorasse o teor do e-mail recebido.
7. Entretanto, apesar de nos dias seguintes as ações MAPT4 não
aparecerem em sua carteira, no dia 14.08.2019 o Reclamante visualizou essas
ações em sua carteira - inclusive com valorização de 1.000% no período, o que, se
fosse o caso, representaria um lucro aproximado de R$ 20 mil.
8. Ao entrar em contato com a Reclamada para esclarecer tal situação,
ele teria sido informado que as ações não estavam disponíveis e que a situação
seria regularizada pela B3 em D+9.
9. Nos dias 15 e 16.08.2019, as ações não apareciam mais em sua
carteira. Porém, no dia 19.08.2019, o Reclamante verificou em seu extrato que
estava com saldo devedor de R$ 2.114,88. Ao entrar em contato com
a Reclamada, foi informado que ele havia sido multado pela utilização de margem
indisponível na operação com o ativo MAPT4.
10. Alega o Reclamante que a XP teria liquidado de forma arbitrária todos
os ativos que ele detinha (no valor aproximado de R$ 15 mil), além do lançamento
do citado saldo devedor.
11. Face ao exposto, o Reclamante requereu o ressarcimento no valor de
R$ 19.033,16. Justificou que o prejuízo fora causado pelo erro da Reclamada em
não lançar a compra das ações MAPT4 no dia posterior ao da venda a descoberto.
Adicionalmente, requereu danos emergentes e lucros cessantes face aos fatos
narrados.
I.ii. Defesa da Reclamada
12. Em sua defesa, a Reclamada buscou argumentar que o Reclamante
teria sido o único responsável pela execução da operação. Resumidamente, a
Reclamada afirmou que (1032485, fls. 26-30):
i. não teria sido identificada qualquer falha em sua plataforma no
período indicado;
ii. não teria ocorrido erro por parte da Reclamada referente à conta
do Reclamante. Na verdade, após análise da equipe de risco da
corretora, a operação discutida apenas teria sofrido com as regras
de liquidação da própria B3;
iii. o caso em questão seria uma venda a descoberto de um ativo
indisponível no mercado (sem aluguel). Conforme disposto no
manual de procedimentos operacionais da Câmara BM&FBovespa,
o investidor nessa situação está sujeito às penalidades impostas
pela B3. No manual, também estão descritos os custos e multas
Ofício Interno 15 (1200499) SEI 19957.004014/2020-83 / pg. 2
relacionadas ao caso; e
iv. dessa forma, a Reclamada não pode ser responsabilizada no
presente caso, vez que não teria cometido qualquer ato capaz de
dar causa aos fatos que ensejaram os prejuízos do Reclamante.
13. Adicionalmente, ao ser provocada pela BSM para prestar alguns
esclarecimentos específicos, a Reclamada informou que:
i. não houve atuação compulsória da Reclamada em MAPT4;
ii. a venda inicial foi executada pelo cliente no dia 08 ao preço de R$
12,20/ação. No dia seguinte, ele realizou compra ao preço de R$
24,10/ação;
iii. todos os custos de recompra e multas foram calculados e aplicados
pela própria B3, em linha com a metodologia prevista em seu
manual;
iv. a ação teria "reaparecido" porque o cliente, por não saber a regra
de operação da B3, realizou a compra em D+1 - ao passo que a B3
também realizou recompra compulsória. Sobre este ponto, a
própria B3 poderia explicar porque não teria visualizado que o
cliente já havia comprado o ativo e se isso seria uma falha dela.
I.iii. Manifestações adicionais das partes
14. Uma das solicitações específicas feitas inicialmente pela BSM era para
que a Reclamada enviasse todas as comunicações (telefônicas, por escrito ou por
mensagens instantâneas) mantidas entre o Reclamante e representantes da
Reclamada. Tal demanda não foi atendida na primeira manifestação da
Reclamada.
15. Tendo em vista as alegações do Reclamante sobre a existência dessas
conversas, a BSM reiterou essa solicitação (1032485, fl. 35), tendo sido enviado
um conjunto de arquivos de áudio.
16. Ao tomar conhecimento desses arquivos, o Reclamante apresentou
manifestação adicional alegando que a Reclamada teria compartilhado apenas
parte das conversas realizadas. O Reclamante chega a especificar as datas das
conversas que teriam sido omitidas (inclusive apresentando seu extrato
telefônico), bem como afirmou que uma das conversas omitidas seria justamente
aquela na qual uma das atendentes teria dito para ele "ficar 'tranquilo' e
'desconsiderar o e-mail recebido'".
17. Por fim, o Reclamante reforça as suas características enquanto
investidor e alega que a Reclamada faltou com o zelo e acompanhamentos
necessários para verificar se as ordens emitidas condiziam com as características
de aplicações eleitas por ele.
I.iv. Parecer SJUR e Decisão do DAR
18. Em seu parecer, a SJUR concluiu com a opinião de que o pedido do
Reclamante era improcedente por não configurar nenhuma das hipóteses de
ressarcimento previstas no art. 77 da ICVM 461/2007 (1032485, fls. 46-55).
19. A SJUR considerou que a controvérsia do processo consistia no
Ofício Interno 15 (1200499) SEI 19957.004014/2020-83 / pg. 3
tratamento a ser dado à compra das ações MAPT4, pelo Reclamante, no dia
seguinte à operação de venda a descoberto.
20. A compra das ações, conforme realizada, não supriria a falha de
entrega. Isso porque ela teria sido realizada no dia seguinte ao da operação de
venda a descoberto. Desta forma, a entrega da venda a descoberto, que deveria
ocorrer em D+3, só ocorreria em D+4, o que gerou o descasamento dos ciclos de
liquidação das operações.
21. Assim, a aplicação de multas e liquidação de ativos (para suprir as
multas, prejuízos e encargos) foram devidas, conforme previsto no regulamento
aplicável.
22. A SJUR acrescentou que o Reclamante estaria ciente dos termos de
operações com empréstimos de ativos, já que o contrato de intermediação,
assinado por ele, fazia menção às operações referentes ao “Termo de Autorização
- Banco de Títulos CBLC”, que trata justamente de situações como a retratada no
presente processo.
23. A respeito da alegação do Reclamante sobre o desenquadramento de
seu perfil ao do produto que ele operou, a SJUR afirmou que não seria procedente.
No entender da SJUR, o Reclamante teria declarado, ao assinar o "Contrato de
Intermediação e Custódia e Outras Avenças", ter ciência das normas aplicáveis às
operações de empréstimo de títulos e autorizado expressamente a corretora a
representá-lo em operações de empréstimo perante o BTB.
24. Sobre a alegação relacionada ao perfil de investimento do Reclamante,
a SJUR entendeu que:
[....] Além disso, a afirmação [do Reclamante] que possuía
perfil moderado de investimento e isso obrigaria a Corretora a
acompanhar suas operações, não procede. O perfil de
investimento está relacionado à proteção do investidor em face
de ofertas de produtos por parte dos intermediários e seus
prepostos. Fora isso, os investidores possuem autonomia para
a execução de operações no mercado de capitais, e devem
estar atentos às regras que envolvem as operações que estão
executando.
25. Acompanhando o parecer jurídico da SJUR, o Diretor de
Autorregulação da BSM decidiu pela improcedência do pedido do Reclamante,
considerando não haver ação ou omissão da Reclamada que tenha ocasionado o
prejuízo alegado, nos termos do artigo 77 da ICVM 461/2007.
I.v. Recurso à CVM
26. No recurso, o Reclamante discordou da conclusão da BSM. Além dos
argumentos já trazidos em suas manifestações anteriores, o Reclamante contesta
a informação contida no parecer SJUR de que, para que não incorresse em multas,
o investidor teria que ter zerado sua posição no próprio pregão em que a abriu. Tal
afirmação seria "risível", vez que o Recorrente só teria tido conhecimento da
necessidade de regularizar sua situação justamente no dia posterior da venda a
descoberto, data em que foi enviado o e-mail pela Reclamada.
II. Manifestação da Área Técnica
27. Preliminarmente, informamos que o recurso é tempestivo, conforme
regulamento do MRP.
Ofício Interno 15 (1200499) SEI 19957.004014/2020-83 / pg. 4
28. No mérito, entendemos que é devido ressarcimento ao Reclamante,
por motivo a ser melhor explorado mais adiante. No entanto, tendo em vista
algumas das alegações apresentadas no recurso, entendemos pertinente reiterar
um esclarecimento sobre o funcionamento do mercado constante da decisão da
BSM - antes de adentrar nos motivos pelos quais o recurso deve ser considerado
procedente.
II.i. Da dinâmica aplicável a posições em aberto
29. As manifestações contidas ao longo do processo parecem sugerir que
o Reclamante entende que, ao recomprar as ações que vendeu a descoberto no
dia anterior, ele estaria "regularizando" a sua situação. Assim, as cobranças de
multas e o surgimento do saldo devedor, bem como o comportamento não
esperado observado por ele em sua conta junto à Reclamada, seriam decorrentes
de uma falha operacional no processamento dessas ordens.
30. Sobre o assunto, é importante ressaltar que esse é um entendimento
não merece prosperar.
31. Nesse ponto, a explicação contida no Parecer SJUR não merece
reparos.
32. A compra de ações realizada pelo Reclamante em D+1 não
"neutraliza" a falha na entrega das ações que foram objeto de venda a descoberto
em D+0 - e nem afasta as potenciais consequências dessa operação.
33. Afinal, quando a operação realizada em D+0 é liquidada, a operação
realizada em D+1 ainda está aguardando a liquidação. Dessa forma, quando do
momento da liquidação da operação original, o Reclamante estava, sim, sujeito
aos procedimentos previstos no regulamento da B3 para tratamento de falha de
entrega de ativos.
34. Ainda que o Reclamante tenha eventualmente atuado de boa-fé, a
zeragem da posição no dia seguinte não é um remédio capaz de anular os efeitos
do fechamento de um pregão em posição vendida a descoberto. E, nesse sentido,
a falta de um mercado ativo de empréstimo de MAPT4 acabou por gerar
consequências ainda mais severas ao saldo do investidor - porém, o que cabe
ressaltar aqui, é que isso ocorreu em linha com o procedimento previsto no
regulamento aplicável.
35. Não obstante, para fins de ressarcimento pelo MRP, uma outra
dimensão do caso concreto deve ser considerada preponderante.
II.ii. Da adequação da operação ao perfil do investidor
36. Em relação à adequação da operação ao perfil do investidor,
discordamos da posição da BSM.
37. A base para discussão de perfil de investimentos é a Instrução CVM nº
539/13. Ressaltamos aqui o que a norma dispõe em seu Capítulo IV - Vedações e
Obrigações:
Art. 5º. E(cid:91) vedado às pessoas referidas no art. 1º recomendar
produtos ou servico̧ s ao cliente quando:
I – o perfil do cliente não seja adequado ao produto ou
servico̧ ;
II – não sejam obtidas as informaco̧ ̃es que permitam a
identificaca̧ ̃o do perfil do cliente; ou
Ofício Interno 15 (1200499) SEI 19957.004014/2020-83 / pg. 5
III – as informaco̧ ̃es relativas ao perfil do cliente não
estejam atualizadas.
Art. 6º. Quando o cliente ordenar a realizaca̧ ̃o de operaco̧ ̃es nas
situaco̧ ̃es previstas nos incisos I a III do art. 5º, as pessoas
referidas no art. 1º devem, antes da primeira operaca̧ ̃o com a
categoria de valor mobiliário:
I – alertar o cliente acerca da ausência ou desatualizaca̧ ̃o
de perfil ou da sua inadequaca̧ ̃o, com a indicaca̧ ̃o das
causas da divergência; e
II – obter declaraca̧ ̃o expressa do cliente de que está
ciente da ausência, desatualizaca̧ ̃o ou inadequaca̧ ̃o de
perfil.
Parágrafo único. As providências exigidas no caput são
dispensadas quando o cliente estiver, comprovadamente,
implementando recomendaco̧ ̃es fornecidas por consultor de
valores mobiliários autorizado pela CVM.
38. A fim de dirimir qualquer dúvida, esta SMI diligenciou junto à
Reclamada para que ela apresentasse, caso existisse, a documentação
considerada como comprobatória de ciência dos riscos por parte do Investidor
e/ou eventuais autorizações específicas que tenham sido por ele concedidas para
as operações de venda a descoberto (1194915).
39. Sobre a resposta (1195488) e os anexos apresentados (1195489), a
conclusão é que não podem ser considerados suficientes para caracterizar a
devida ciência dos riscos por parte do Investidor.
40. A Reclamada chega a alegar que "em relação a documentação
comprobatória de ciência dos riscos na execução de venda à descoberto pelo
Reclamante, este dispunha de perfil Suitability moderado (Doc. 01), ou seja,
compatível às operações realizadas, conforme disposto em política Suitability à
época dos fatos (Doc. 02), portanto, restando claro o conhecimento à respeito dos
riscos envolvidos".
41. No entanto, o conteúdo da Política de Suitability citada não corrobora
essa conclusão.
42. Na descrição do perfil de investidor "Moderado", a Política de Suitability
informa que, para este tipo de investidor "foram incluídos investimentos cuja perda
máxima seja equivalente ao valor investido" - o que não é o caso para operações
de vendas a descoberto, as quais podem vir a incorrer em perdas superiores ao
patrimônio do investidor.
43. Adicionalmente, no rol de produtos indicados por perfil, há menção no
perfil Moderado ao produto "BTC (doador)" - em contraste com a seção
equivalente do perfil Agressivo, a qual conta com a indicação "BTC (tomador e
doador)". A operação realizada implicaria uma atuação na ponta tomadora do BTC
por parte do investidor - portanto, nos termos da Política de Suitability, adequada
ao perfil Agressivo, mas não ao perfil Moderado.
44. Dessa forma, não é possível considerar que a operação realizada
estivesse enquadrada no perfil do Reclamante, razão pela qual se mostrariam
necessárias as diligências previstas no art. 6º da ICVM 539/13 direcionadas a obter
uma ciência específica do investidor - as quais não ocorreram.
45. Assim, a Reclamada não cumpriu com os comandos de suitability
necessários. A operação original realizada pelo Reclamante era inadequada ao seu
perfil e era a primeira vez que ele operava esta categoria de valor mobiliário. No
entanto, a Reclamada não alertou o cliente antes da operação e tampouco obteve
Ofício Interno 15 (1200499) SEI 19957.004014/2020-83 / pg. 6
sua declaração expressa sobre a inadequação do produto ao seu perfil.
46. Ao contrário, a Reclamada só alertou o Reclamante no dia seguinte à
execução da operação - e, ao que tudo indica, apenas devido ao fato de não
existir, naquele momento, o ativo disponível para aluguel no mercado.
47. Ressalte-se que, além da exigência normativa, a Reclamada ainda
deixou de cumprir o item 4.4 da sua própria Política de Suitability
(doc. 1078712), a qual está dispõe que:
"Nos casos em que o cliente ordene a realização de operações
em desacordo com o perfil, mesmo após ter sido informado,
nós o alertaremos, antes da primeira operação, acerca da
ausência ou da desatualização de seu perfil de investimentos e
solicitaremos a declaração expressa de que está ciente da
ausência, desatualização ou inadequação de perfil.
Para as operações realizadas por meio de ferramentas de
negociação DMA (direct market acess), o cliente poderá
assinar, eletronicamente, o termo de ciência de
desenquadramento e prosseguir com a operação. Para a
ferramenta XP PRO, a operação será bloqueada e o cliente
deverá acessar o portal e refazer o seu perfil de
investimentos."
48. Entendemos ter restado claro que, se a Reclamada tivesse seguido as
regras previstas na ICVM 539 e na sua própria Política de Suitability, ela poderia ter
evitado o prejuízo resultante da operação reclamada.
49. Ainda a esse respeito, apesar de já terem sido colocadas aqui as
principais considerações para fins do MRP, entendemos pertinente registrar que as
gravações dos telefonemas ocorridos entre as partes (docs. 1078021 e
1078023) evidenciam que a prestação de informações por parte da Reclamada
pouco auxiliou o Reclamante. Há evidente dificuldade por parte da Reclamada
para entender e explicar ao Reclamante as dúvidas em relação às suas ações e ao
prejuízo incorrido, dificultando qualquer outra ação que este pudesse ter tomado
para evitar ou reduzir seu prejuízo, ou mesmo para compreender os limites do que
ele poderia fazer daquele momento em diante.
50. Portanto, tendo em vista que a operação de venda a descoberto só
poderia ter sido disponibilizada ao Reclamante após os devidos alertas sobre a
inadequação ao seu perfil e assinatura de declaração de ciência dos riscos,
entendemos ter havido falha por parte da Reclamada ao disponibilizar operações
características de investidor com perfil agressivo para investidor com perfil
moderado, caracterizando assim uma omissão no contexto do art. 77, caput, da
ICVM 461/2007.
51. Diante do exposto, esta área técnica opina pelo PROVIMENTO do
pedido do Reclamante, a fim de que seja realizado o ressarcimento dos prejuízos
decorrentes das operações realizadas pelo Reclamante em 08 e 09.08.2019 com o
ativo MAPT4.
52. Em relação ao valor a ser ressarcido, entendemos que deve ser igual
ao resultado total incorrido pelo investidor em virtude da operação realizada fora
de seu perfil (incluindo, nesse caso, as multas devidas nos termos do regulamento
aplicável da B3). Assim, nos termos do extrato constante às fls. 08-09 do
documento SEI 1032485, deve ser ressarcido o valor de R$17.102,55,
equivalente ao valor identificado como "diferença de recompra" (R$ 17.033,16),
acrescido das tarifas e multas relacionadas (R$ 22,11, R$ 5,60 e R$ 41,68).
53. Nestes termos, propõe-se o envio do presente processo para
Ofício Interno 15 (1200499) SEI 19957.004014/2020-83 / pg. 7
apreciação do Colegiado, com sugestão de relatoria por esta SMI/GME.
Atenciosamente,
Bruno Baitelli Bruno
Gerente de Estrutura de Mercado e Sistemas Eletrônicos - GME
De acordo, ao SGE.
Francisco José Bastos Santos
Superintendente de Relações com o Mercado e Intermediários - SMI
Ciente.
À EXE, para as providências exigíveis.
Alexandre Pinheiro dos Santos
Superintendente Geral
Documento assinado eletronicamente por Bruno Baitelli Bruno, Gerente,
em 22/02/2021, às 11:30, com fundamento no art. 6º do Decreto nº 8.539,
de 8 de outubro de 2015.
Documento assinado eletronicamente por Francisco José Bastos Santos,
Superintendente, em 22/02/2021, às 13:44, com fundamento no art. 6º
do Decreto nº 8.539, de 8 de outubro de 2015.
Documento assinado eletronicamente por Andrea Araujo Alves de Souza,
Superintendente Geral Substituto, em 22/02/2021, às 14:27, com
fundamento no art. 6º do Decreto nº 8.539, de 8 de outubro de 2015.
A autenticidade do documento pode ser conferida no site
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verificador 1200499 e o código CRC 3A1D3509.
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1200499 and the "Código CRC" 3A1D3509.
Referência: Processo nº 19957.004014/2020-83 Documento SEI nº 1200499
Ofício Interno 15 (1200499) SEI 19957.004014/2020-83 / pg. 8
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